{"id":818,"date":"2017-02-13T01:00:32","date_gmt":"2017-02-13T01:00:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/?p=818"},"modified":"2017-02-13T01:00:32","modified_gmt":"2017-02-13T01:00:32","slug":"como-a-meditacao-pode-ajudar-no-manejo-da-dor-cronica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/?p=818","title":{"rendered":"Como a Medita\u00e7\u00e3o pode ajudar no manejo da Dor Cr\u00f4nica?"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 recentemente a dor era considerada um aspecto decorrente da les\u00e3o tecidual, que surgia a partir da ativa\u00e7\u00e3o de receptores perif\u00e9rico e informavam ao sistema nervoso que havia uma amea\u00e7a real ou potencial. Com o advento da neuroci\u00eancia, novas tecnologias de investiga\u00e7\u00e3o, e estudos de neuroimagem mostrou-se que ter dor, n\u00e3o necessariamente \u00e9 sintoma de les\u00e3o ou inflama\u00e7\u00e3o ativa. E tendo essa prerrogativa como base, justificou-se muitos quadros cl\u00ednicos de dor cr\u00f4nica, que ocorrem ap\u00f3s uma les\u00e3o ser cicatrizada, ou mesmo sem les\u00e3o alguma, como pode ser observado em quadros de fibromialgia ou dor lombar inespec\u00edfica. Desta forma, muitas terap\u00eauticas aplicadas no tratamento da dor cr\u00f4nica mostram-se ineficazes, ou de baixa resolubilidade, quando aplicadas isoladamente, por levar em considera\u00e7\u00e3o um pensamento cartesiano em rela\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno dor. Na tentativa incans\u00e1vel de remediar o sofrimento de pacientes com dor cr\u00f4nica, chegou-se a conclus\u00e3o que terapias com abordagem perif\u00e9rica e central podem ter bons resultados. Neste contexto, de abordagem central, pode-se citar a pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o como recurso terap\u00eautico no auxilio de pacientes com dor cr\u00f4nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a medita\u00e7\u00e3o vai aliviar a dor? Vai desviar o foco de aten\u00e7\u00e3o? Deve-se ter em mente que dor n\u00e3o tem apenas um componente f\u00edsico ou discriminativo, h\u00e1 tamb\u00e9m elementos cognitivos-motivacionais, que s\u00e3o respons\u00e1veis pelo comportamento e emo\u00e7\u00f5es frente \u00e0 dor cr\u00f4nica. Assim, a medita\u00e7\u00e3o pode ser definida como uma forma de treinamento mental que visa melhorar as capacidades psicol\u00f3gicas b\u00e1sicas de um indiv\u00edduo, como auto-regula\u00e7\u00e3o atencional e emocional. \u00c9 neste sentido que esse m\u00e9todo vai auxiliar pacientes com dor cr\u00f4nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A medita\u00e7\u00e3o engloba uma fam\u00edlia de m\u00e9todos que incluem a pr\u00e1tica da aten\u00e7\u00e3o plena, mantras, ioga, taiji e qi gong. Destas pr\u00e1ticas, a medita\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o plena &#8211; muitas vezes descrita como aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o cr\u00edtica \u00e0s experi\u00eancias de momento presente &#8211; tem recebido maior aten\u00e7\u00e3o na pesquisa de neuroci\u00eancia nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas [1].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o devemos ser reducionistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas tradicionais, pois os benef\u00edcios podem ser observado tanto nos aspectos f\u00edsicos, ps\u00edquicos e at\u00e9 no \u00e2mbito espiritual, para aqueles que \u00e0s buscam com este objetivo. No entanto, um fen\u00f4meno observado no mundo moderno \u00e9 a releitura destas pr\u00e1ticas a partir de um olhar cient\u00edfico, eliminando aspectos esot\u00e9ricos das pr\u00e1ticas meditativas tradicionais e com a inten\u00e7\u00e3o de avaliar o real benef\u00edcio sob uma perspectiva cient\u00edfica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das pr\u00e1ticas que tem ganhado grande \u00eanfase no meio acad\u00eamico \u00e9 a medita\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o plena, ou como mais popularmente conhecida, o mindfulness. Mindfulness \u00e9 um m\u00e9todo derivado da pr\u00e1tica budista <em>vipassana.<\/em> O objeto de medita\u00e7\u00e3o ou contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 o momento presente, as sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es que surgem no aqui e agora do praticante, evitando se deixar levar pelos pensamentos e assim se desligar do momento presente [2].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poderia-se citar os in\u00fameros benef\u00edcios da pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o em diversos tipos de sintomas ou doen\u00e7as, mas talvez na dor cr\u00f4nica ela se mostra realmente muito aplic\u00e1vel. Como est\u00e1 bem estabelecido no escopo cient\u00edfico da neuroci\u00eancias, a dor cr\u00f4nica n\u00e3o \u00e9 somente um fen\u00f4meno perif\u00e9rico, a combina\u00e7\u00e3o com modifica\u00e7\u00f5es no sistema nervoso central. A ativa\u00e7\u00e3o de in\u00fameras regi\u00f5es cerebrais faz com que perpetue a sensa\u00e7\u00e3o de dor. Um estudo de neuroimagem em meditadores volunt\u00e1rios realizado por Zeidan et al. 2012 mostrou que na presen\u00e7a de calor nocivo, a medita\u00e7\u00e3o reduz significativamente o n\u00edvel de processamento das informa\u00e7\u00f5es que chegam em uma \u00e1rea do c\u00e9rebro chamada de c\u00f3rtex somatossensorial prim\u00e1rio (SI) correspondente ao local de estimula\u00e7\u00e3o. As an\u00e1lises de regress\u00e3o revelaram que a redu\u00e7\u00e3o da intensidade da dor relacionada \u00e0 medita\u00e7\u00e3o foram associados com maior atividade no c\u00f3rtex cingulado anterior rostral (rACC), uma \u00e1rea envolvida no controle cognitivo e maior atividade c\u00f3rtex orbitofrontal (OFC) e menor ativa\u00e7\u00e3o do t\u00e1lamo (Thl) foram associadas com diminui\u00e7\u00f5es nos \u00edndices de dor [3].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 recentemente, acreditava-se que o al\u00edvio da dor por meio da pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o mindfulness se dava por libera\u00e7\u00e3o de opi\u00f3ides no tronco cerebral, no entanto, Zeidan et al. 2016 demonstram que altas doses de naloxona, um antagonista opi\u00f3ide n\u00e3o reverte a analgesia promovida pela medita\u00e7\u00e3o. O estudo concluiu que a habilidade meta-cognitiva de reconhecer e deixar de lado os eventos sensoriais que surgem envolve um sistema modulador da dor \u00fanico e auto-facilitado. A medita\u00e7\u00e3o mindfulness reduz significativamente a dor a partir de um regime de treinamento mental e essa redu\u00e7\u00e3o ocorre independentemente do sistema inibit\u00f3rio da dor (opioid\u00e9rgico). Desta forma, a medita\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o plena \u00e9 um processo cognitivo complexo que provavelmente envolve v\u00e1rias redes cerebrais e mecanismos neuroqu\u00edmicos para atenuar a dor, envolvendo m\u00faltiplos mecanismos neurais que inclui c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal ventro-lateral e c\u00f3rtex orbitofrontal lateral que est\u00e3o relacionados aos aspectos avaliativos da dor, assim como a redu\u00e7\u00e3o da atividade tal\u00e2mica, reduzindo a resposta sensorial da dor [4].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Tang, Y.-Y., H\u00f6lzel, B. K. &amp; Posner, M. I. The neuroscience of mindfulness meditation. <em>Nat. Rev. Neurosci.<\/em> <strong>16,<\/strong> 1\u201313 (2015).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Grant, J. A. Meditative analgesia: the current state of the field. <em>Ann. N. Y. Acad. Sci.<\/em> <strong>1307,<\/strong> 55\u201363 (2014).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Zeidan, F., Grant, J. A., Brown, C. A., McHaffie, J. G. &amp; Coghill, R. C. Mindfulness meditation-related pain relief: Evidence for unique brain mechanisms in the regulation of pain. <em>Neuroscience Letters<\/em> <strong>520,<\/strong> 165\u2013173 (2012).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Zeidan, F. <em>et al.<\/em> Mindfulness-Meditation-Based Pain Relief Is Not Mediated by Endogenous Opioids. <em>J. Neurosci.<\/em> <strong>36,<\/strong> 3391\u20133397 (2016).<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><a href=\"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/rafael.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-819 alignleft\" src=\"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/rafael-300x300.jpg\" alt=\"rafael\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/rafael-300x300.jpg 300w, http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/rafael-150x150.jpg 150w, http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/rafael-230x231.jpg 230w, http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/rafael-250x250.jpg 250w, http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/rafael.jpg 345w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Rafael Vercelino, PhD.<\/h3>\n<h3>Fisioterapeuta<\/h3>\n<h3>Doutor em Fisiologia Humana,<\/h3>\n<h3>Especializa\u00e7\u00e3o em Dor e Medicina Paliativa<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; At\u00e9 recentemente a dor era considerada um aspecto decorrente da les\u00e3o tecidual, que surgia a partir da ativa\u00e7\u00e3o de receptores perif\u00e9rico e informavam ao<\/p>\n<div class=\"read-more-wrapper\"><a class=\"link small\" href=\"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/?p=818\" role=\"button\">Read more<span class=\"nc-icon-glyph arrows-1_bold-right\"><\/span><\/a><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":819,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/818"}],"collection":[{"href":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=818"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/818\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":821,"href":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/818\/revisions\/821"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/819"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=818"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=818"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=818"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}