{"id":865,"date":"2017-05-02T13:47:00","date_gmt":"2017-05-02T13:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/?p=865"},"modified":"2017-05-02T13:47:00","modified_gmt":"2017-05-02T13:47:00","slug":"qual-e-o-melhor-desfecho-clinico-na-dor-cronica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/?p=865","title":{"rendered":"QUAL \u00c9 O MELHOR DESFECHO CL\u00cdNICO NA DOR CR\u00d4NICA?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Em 2015, umas das revistas cient\u00edficas mais importantes do mundo (<em>New England Journal of Medicine<\/em>) publicou um editorial contestando o uso da intensidade da dor como o principal desfecho cl\u00ednico para o tratamento da dor cr\u00f4nica. A ideia principal do editorial \u00e9 que as interven\u00e7\u00f5es que se mostram mais eficazes na redu\u00e7\u00e3o da intensidade dor n\u00e3o produzem melhoras significativas. Mas que por outro lado, terapias multimodais (geralmente abordagens f\u00edsico-comportamentais) que focam na redu\u00e7\u00e3o da incapacidade, ansiedade e stress por exemplo (ao inv\u00e9s da intensidade dor) devem ser utilizadas. Os autores afirmam que focar na melhora destes fatores coadjuvantes trar\u00e1 como consequ\u00eancia, uma diminui\u00e7\u00e3o na intensidade da dor. Al\u00e9m disso, acreditam que caso n\u00e3o haja melhora da dor, o paciente deveria aceitar o fato de conviver com a mesma, considerando a dor algo menos importante em sua vida (melhorando sua qualidade de vida). Essa cren\u00e7a tamb\u00e9m deu origem a uma vis\u00e3o de que nenhum tratamento \u00e9 eficaz para melhorar a dor e que talvez dev\u00eassemos descartar a intensidade da dor como um desfecho cl\u00ednico no tratamento da dor cr\u00f4nica. Mas ser\u00e1 que dor n\u00e3o \u00e9 mesmo importante nestes pacientes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso grupo de pesquisa ficou curioso para investigar se esta vis\u00e3o \u00e9 baseada em evid\u00eancias e se, dever\u00edamos mesmo parar de mensurar a intensidade da dor nestes pacientes. Foi ent\u00e3o que publicamos, em 2016, um editorial na <em>British Journal of Sports Medicine<\/em> no qual testamos esta hip\u00f3tese atrav\u00e9s de dados de ensaios cl\u00ednicos inclu\u00eddos em revis\u00f5es sistem\u00e1ticas da Cochrane. Um breve resumo sobre este estudo est\u00e1 descrito abaixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s investigamos todas as revis\u00f5es da Cochrane que tiveram como objetivo avaliar interven\u00e7\u00f5es (qualquer interven\u00e7\u00e3o) para dor lombar cr\u00f4nica. A partir disso, inclu\u00edmos todos os ensaios cl\u00ednicos que apresentavam resultados para intensidade da dor e incapacidade a curto prazo (at\u00e9 3 meses depois da randomiza\u00e7\u00e3o) comparado com um grupo controle. Utilizamos dor lombar cr\u00f4nica por ser a dor cr\u00f4nica mais prevalente no mundo. Desta forma, calculamos a diferen\u00e7a entre os desfechos \u2018intensidade da dor\u2019 e \u2018incapacidade\u2019 gerando a \u2018diferen\u00e7a m\u00e9dia padr\u00e3o\u2019 (ou em ingl\u00eas, <em>standardised mean difference &#8211; SMD<\/em>) da diferen\u00e7a entre os desfechos com seus respectivos intervalos de confian\u00e7a (de 95%).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Detalhes estat\u00edsticos a parte, nossa busca incluiu 17 revis\u00f5es sistem\u00e1ticas da Cochrane com dados de 53 ensaios cl\u00ednicos e mais de 5.800 participantes. O valor do SMD para intensidade da dor foi de 0.57 (IC 95% -0.68 \u2013 -0.46, tamanho m\u00e9dio de efeito) enquanto que para incapacidade foi de -0.39 (IC 95% -0.48 \u2013 -0.30, tamanho de efeito pequeno). A diferen\u00e7a entre os SMDs entre dor e incapacidade foi de 0.20 (IC 95% -0.27 \u2013 -0.06). Isso significa que os tratamentos para dor cr\u00f4nica, de um modo geral, produzem maiores efeitos para intensidade da dor do que para incapacidade, contrariando os argumentos da vis\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 melhora da intensidade da dor no tratamento destes pacientes. Para quem gosta de detalhes mais aprofundados, n\u00f3s tamb\u00e9m comparamos a intensidade da dor com outros desfechos como por exemplo, sintomas depressivos, catastrofiza\u00e7\u00e3o da dor e ansiedade e mesmo assim, os resultados foram semelhantes. Os resultados destes outros desfechos n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis no artigo principal, pois este editorial tinha espa\u00e7o de texto limitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso estudo mostrou ent\u00e3o, que a vis\u00e3o contempor\u00e2nea de que a intensidade da dor n\u00e3o \u00e9 o melhor desfecho de sucesso nos tratamentos da dor cr\u00f4nica n\u00e3o parece estar baseada em evid\u00eancias. A suposi\u00e7\u00e3o de que outras op\u00e7\u00f5es de tratamento, como as terapias comportamentais ou psicol\u00f3gicas por exemplo, reduzem principalmente incapacidade, mas n\u00e3o a intensidade da dor, n\u00e3o \u00e9 consistente com os nossos achados. Essas terapias podem, portanto, serem vistas como op\u00e7\u00f5es de analgesia e possivelmente serem otimizadas com a adi\u00e7\u00e3o de um componente adicional (por exemplo, o exerc\u00edcio). Esta \u00e9 uma \u00f3tima not\u00edcia para cl\u00ednicos e pacientes, pois aparentemente, a intensidade da dor ainda deve ser o alvo da terapia sem que precisemos recorrer a tratamentos mais arriscados (por exemplo, medicamentos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixar a intensidade da dor em segundo plano no tratamento da dor cr\u00f4nica poderia impedir o desenvolvimento de novas terapias e dificultar ainda mais a compreens\u00e3o sobre os mecanismos subjacentes aos tratamentos da dor cr\u00f4nica. Al\u00e9m disso, esta decis\u00e3o parece n\u00e3o levar em considera\u00e7\u00e3o a vis\u00e3o dos pacientes que reportam claramente a dor como uma experi\u00eancia desagrad\u00e1vel e algo que eles realmente prefeririam se ver livres. \u00c9 claro que a intensidade da dor n\u00e3o \u00e9 uma medida perfeita e que ainda faltam estudos para definir a melhor abordagem para medir este desfecho. Por\u00e9m, ainda me parece um pouco ir\u00f4nica a ideia de tratar uma condi\u00e7\u00e3o denominada \u201cdor cr\u00f4nica\u201d sem considerar dor como um desfecho relevante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><a href=\"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/bruno.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-866 alignleft\" src=\"http:\/\/pesquisaemdor.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/bruno.jpg\" alt=\"bruno\" width=\"280\" height=\"259\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Bruno Saragiotto<\/h3>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Fisioterapeuta, Mestre em fisioterapia pela Universidade Cidade de S\u00e3o Paulo e PhD em medicina pela Universidade de Sydney, Australia. Coordenador do blog PEDrinho da base de dados PEDro (PhysiotherapyEvidenceDatabase.PEDrinho)\u00a0e do blog para jovens pesquisadores ICECReam (theicecream.org\/). Autor de mais de 40 artigos cient\u00edficos e editor associado do Cochrane Back and Neck Group.<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2015, umas das revistas cient\u00edficas mais importantes do mundo (New England Journal of Medicine) publicou um editorial contestando o uso da intensidade da dor<\/p>\n<div class=\"read-more-wrapper\"><a class=\"link small\" href=\"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/?p=865\" role=\"button\">Read more<span class=\"nc-icon-glyph arrows-1_bold-right\"><\/span><\/a><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":866,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/865"}],"collection":[{"href":"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=865"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/865\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1042,"href":"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/865\/revisions\/1042"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/866"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=865"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=865"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pesquisaemdor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=865"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}