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O reconhecimento de faces de expressões emocionais pode estar alterado em pessoas com dor crônica?

março 15, 2017 - pesquisaemdor

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A dor crônica pode ser vista como um problema de saúde pública que acomete diversas pessoas em todo o mundo, sendo uma das principais causas pela procura excessiva dos serviços de saúde gerando gastos elevados, altos índices de absenteísmo do trabalho e incapacidades. Além disso, no nível individual pode ser responsável por causar isolamento social, depressão, dependência de medicação, diminuição das atividades e prejuízo na qualidade de vida (GORE et al., 2012).

O reconhecimento de expressões faciais é uma habilidade bem desenvolvida nos humanos e possui um papel importante na cognição social. Essa característica possibilita entendermos as pessoas ao nosso redor facilitando a interação social (SCHAAFSMA et al., 2015). Os humanos, diferentes dos animais, podem reconhecer expressões de alegria, medo, tristeza, raiva, desgosto, surpresa. Ao considerar o isolamento social observado em pessoas com dor crônica, surge a questão: Será que essas pessoas são capazes de identificar expressões faciais ou a inabilidade de reconhecer essas expressões pode ser um fator que contribui para o isolamento social?

Atualmente, sabemos que o processamento da dor envolve áreas do córtex cingulado anterior (ACC), córtex somatossensorial primário e secundário, amígdala, ínsula, tálamo e cerebelo. Ao longo do tempo, a dor crônica pode gerar modificações funcionais e estruturais nessas áreas do cérebro. Estruturas que como a amígdala e a ínsula desempenham um papel importante no reconhecimento das expressões faciais. Sendo assim, as modificações nessas regiões por conta da dor crônica pode gerar uma alteração no reconhecimento de faces de emoções básicas (DAVIS, 2000; DI TELLA et al., 2015).

Em um estudo realizado por Di Tella et al., (2015) com pacientes com diagnóstico de fibromialgia foram encontrados resultados significativos para déficits de reconhecimento de faces de raiva e desgosto comparados com o grupo controle. No estudo também foi encontrado maior proporção de ansiedade e depressão para os pacientes com fibromialgia quando comparado com o grupo controle. Em outro estudo realizado com pacientes com diagnóstico de síndrome de dor complexa regional crônica foi utilizado o Reading the Mind in the Eyes Test (RMET) que consiste em um teste que avalia a capacidade do indivíduo reconhecer estados mentais e afetivos de outras pessoas através de fotografias que mostram apenas a região dos olhos. Foi identificado um baixo desempenho, porém não houve significância estatística quando comparada ao grupo controle (SHIN et al., 2013). Já Piekartz et al. (2014) avaliando pacientes com dor crônica orofacial, encontrou que o grupo composto por pessoas com dor apresentavam dificuldade em identificar as faces de emoções básicas quando comparado com o grupo controle. No entanto, os autores sugerem que essa dificuldade em reconhecer as expressões faciais pode estar relacionada a alteração da representação do mapa cerebral da própria face uma vez que esses resultados apresentaram correlação com a discriminação da lateralidade (r=0.523, p<0,001).

O processamento das emoções tem sido foco de estudo em populações clínicas específicas como os transtornos afetivos, transtornos alimentares, transtornos de personalidade, esquizofrenia, autismo, entre outros. Essas populações apresentam alterações no funcionamento de diversas estruturas cerebrais dentre elas as áreas que fazem parte do reconhecimento de faces. Porém, na população acometida pela dor crônica o processamento das emoções e reconhecimento de faces ainda é pouco relatado na literatura.

Refefrências:

GORE, Mugdha et al. The burden of chronic low back pain: clinical comorbidities, treatment patterns, and health care costs in usual care settings. Spine, v. 37, n. 11, p. E668-E677, 2012.

SCHAAFSMA, Sara M. et al. Deconstructing and reconstructing theory of mind. Trends in cognitive sciences, v. 19, n. 2, p. 65-72, 2015.

DAVIS, K. D.The neural circuitry of pain as explored with functional MRI. Neurol. Res. 22, 313 (2000).

DI TELLA, Marialaura et al. Theory of Mind and Emotional Functioning in Fibromyalgia Syndrome: An Investigation of the Relationship between Social Cognition and Executive Function. PloS one, v. 10, n. 1, 2015.

SHIN, Na Young et al. Impaired recognition of social emotion in patients with complex regional pain syndrome. The Journal of Pain, v. 14, n. 11, p. 1304-1309, 2013.

Piekartz, H., et al. “People with chronic facial pain perform worse than controls at a facial emotion recognition task, but it is not all about the emotion.” Journal of oral rehabilitation 42.4 (2015): 243-250.

 

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Anna Carolina da S. Chaves

É fisioterapeuta formada pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ).

No momento, faz parte dos alunos do grupo de Pesquisa de Neurociência e Psicofisiologia da UFRJ. Desenvolve projeto de pesquisa sobre dor e emoção.

 

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