Mão direita ou mão esquerda? A representação do segmento no cérebro pode estar alterada nas pessoas com dor crônica.

Janeiro 26, 2017 - pesquisaemdor

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O reconhecimento de lateralidade, que é definido como a habilidade de julgar partes do corpo como pertencentes à direita ou esquerda, vem sendo estudado como um indicativo de mudanças nas representações corporais em pacientes com dor crônica musculoesquelética e como estratégia de tratamento. Essas alterações no julgamento da lateralidade não ocorrem somente para mão. Elas já foram relatadas em diversas outras condições musculoesqueléticas como dor lombar, dor cervical, dor no joelho, síndrome dolorosa complexa regional, amputações (Juottonen 2002ç Bray, Moseley 2011; Nico 2004). Nos casos de alterações é evidenciado o maior tempo de resposta ou erros na tarefa de  julgamento de lateralidade. Essas alterações observadas nas pessoas com dor crônica foram atribuídas a uma reorganização cortical principalmente no córtex somatossensorial primário (S1)  (Flor 2003). Essa região é responsável pelo mapeamento do corpo no cérebro.

Alguns tratamentos foram propostos com o objetivo de restaurar essas alterações no córtex de S1. Entre elas está a Exposição Motora Gradual (Graded Motor Imagery – GMI) que tem o julgamento de lateralidade como sua primeira etapa seguido da imagética e da terapia do espelho. A ideia da GMI é ativar áreas sensoriais e motoras no cérebro do paciente com dor crônica, de forma gradua. Na tarefa de julgamento de lateralidade, o paciente visualiza as imagens do local afetado e deve julgar como direita ou esquerda usando as teclas do computador, um tablete ou mesmo informando verbalmente. No momento em que a pessoa visualiza a foto do segmento em uma determinada posição, para realizar o julgamento da lateralidade, é necessário que ela realize uma rotação mental, ou seja, se posicione na imagem, ativando áreas responsáveis pela representação corporal no cérebro (Parsons 1998). Para o julgamento ser correto, é necessário que as representações corporais estejam intactas. Nos casos em que essa representação estiver alterada, será possível observar aumento do tempo na resposta da tarefa ou mesmo um número menor de acertos. Nesse caso podemos sugerir que há uma alteração na representação do segmento no cérebro do paciente, sendo necessário traçar condutas específicas para restaurá-la (Hudson 2006).

Qual a importância dessas informações para a prática clínica? É possível que as alterações na representação do segmento corporal contribuam para a percepção de uma área de dor mais extensa, para as alterações motoras e ainda favoreça a sua persistência. Dessa maneira, a restauração desta capacidade parece ser importante para melhora do quadro de dor e da diminuição das incapacidades. Alguns estudos observaram que a utilização da tarefa de julgamento de lateralidade como intervenção terapêutica e, não somente como avaliação, foi capaz de diminuir a dor de pessoas com síndrome dolorosa complexa regional. Muitas vezes, o protocolo do GMI pode ser a primeira intervenção em alguns pacientes com dor crônica. Adotar a estratégia do GMI pode contribuir para evoluir no tratamento e permitir que novas estratégias de ativação de motora como as propostas de exercícios possam ser implementadas.

Referências:

Bray H., Moseley G.L. Disrupted working body schema of the trunk in people with back pain. Br J Sports Med n. 45, p.168–173, 2011.

Flor H. Cortical reorganisation and chronic pain: implications for rehabilitation. J Rehabil Med. v. 41, p. 66–72, 2003.

Hudson M. L.  et al. Expectation of pain replicates the effect of pain in a hand laterality recognition task: bias in information processing toward the painful side? Eur J Pain v.10, p.219–24, 2006.

Juottonen K. et al. Altered central sensorimotor processing in patients with complex regional pain syndrome. Pain. v. 98, n. 3, p. 315-23, 2002.

Nico D. et al. Left and right hand recognition in upper limb amputees. Brain v. 127, p.120-132, 2004.

Parsons L. M., Fox P. T. The neural basis of implicit movements used in recognizing hand shape. Cogn Neuropsychol v. 15, p.583–615, 1998.

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Marília Caseiro

Fisioterapeuta

Aluna de Mestrado na USP-Ribeirão Preto.

No momento, concilia sua vida profissional  com as pesquisas que envolvem o reconhecimento de lateralidade na Dor Crônica.

É integrante do PED.

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One thought on “Mão direita ou mão esquerda? A representação do segmento no cérebro pode estar alterada nas pessoas com dor crônica.

  • Gisele

    26 de Janeiro de 2017 at 23:17

    Muito bom, interessante e informativo. A imaginação voa tentando visualizar cada passo e evolução.

    Responder

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