O PONTO COMUM ENTRE DOR PÓS-CÂNCER, DOR PEDIÁTRICA E DOR RELACIONADA AO ESPORTE: A NEUROCIÊNCIA MODERNA DA DOR

maio 22, 2017 - pesquisaemdor

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A dor sempre foi um assunto de grande interesse para os envolvidos na área da saúde. Nos últimos anos, muitas pesquisas permitiram entender que a dor é um mecanismo extenso e complexo, influenciado por pensamentos, emoções, contexto, experiências anteriores, percepções, etc. Portanto, a dor, logicamente, vai além da presença de dano tecidual e pode até ocorrer sem ela.

Muitos pacientes com dor crônica apresentam sinais de hipersensibilidade generalizada, muitas vezes chamada de sensibilização central. Essa hipersensibilidade generalziada é caracterizada pelo aumento da responsividade neuronal, aumento do processamento nociceptivo, mau funcionamento da modulação nociceptiva endógena descendente e anormalidades na estrutura, na função e nas relações químicas do cérebro. Estas características são consideradas reversíveis quando se utilizam modalidades terapêuticas eficazes, mas até o presente momento a relevância clínica destes avanços na neurociência moderna da dor parece limitada à população geral de dor músculo-esquelética adulta. No entanto, existem evidências de que pacientes com dores pós-câncer, pediátricas ou relacionadas ao esporte podem se beneficiar de uma abordagem de tratamento baseada na neurociência moderna da dor, já que há evidência da presença de sensibilização central em (pelo menos uma parte) também nesses pacientes.

O uso de um sistema de classificação baseado no tipo de dor dominante pode não se aplicar apenas à população de dor musculoesquelética adulta, mas também pode ser útil em pacientes com dor pós-câncer, dor pediátrica e dor relacionada ao esporte. A diferenciação entre dor com predomínio de sensibilização central, dor neuropática ou nociceptiva é relevante para a prática clínica, uma vez que os tipos de dor neuropática e mista são considerados mais difíceis de tratar do que a dor nociceptiva. Essa abordagem baseada no mecanismo da dor pode levar a um atendimento mais centrado no paciente, reconhecendo a experiência pessoal única da dor. Juntamente com a classificação do tipo de dor predominante, a neurociência moderna da dor oferecem uma ampla perspectiva de modalidades de tratamento no campo da fisioterapia, incluindo educação em dor, manejo do estresse, higiene do sono, exercícios e etc.

Em relação às populações discutidas aqui, o estresse pode ser um ponto relevante de ação. Considerando que os pacientes com dor pediátrica podem sofrer estresse devido a intervenções médicas (repetitivas). Os atletas podem ser submetidos a muitas situações de estresse em virtude de desempenhos e resultados. Os pacientes com dor pós-câncer, por outro lado, tipicamente sofrem de estresse físico e emocional prolongado devido ao diagnóstico de câncer e todos os tipos de exames e tratamentos que são submetidos. Embora o estresse agudo seja capaz de aliviar a dor em pessoas saudáveis, os pacientes com dor crônica frequentemente sofrem de uma resposta inadequada ao estresse, o que aumenta a possibilidade de implementar técnicas de controle do estresse e relaxamento no programa de tratamento das pessoas com dor crônica, dada a ausência de resultados do tratamento médico para esse problema.

Além disso, deve-se enfatizar o uso de programas de atividade física e exercícios no manejo de crianças com de dor, dor pós-câncer ou mesmo ao relacionado ao esporte. Os programas de exercícios devem, contudo, ser adaptados ao conhecimento moderno da neurociência da dor e devem visar a modificação de estratégias de enfrentamento, percepções e crenças de dor, medos e outros fatores psicossociais contraproducentes. Dada a importância da atividade física e dos exercícios na população em geral e na população com dor crônica em particular, cabe ao fisioterapeuta fornecer condições ideais para sua implementação nesses pacientes (por exemplo, preparando o paciente para atividade física e exercícios por meio da educação em dor com base em neurociência).

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REFERÊNCIAS:

Malfliet A, et al. Modern pain neuroscience in clinical practice: Applied to post-cancer, pediatric and sports-related pain. BJPT; 2017:  https://doi.org/10.1016/j.bjpt.2017.05.009

Fernandez-Lao C, et al. Widespread mechanical pain hypersensitivity as a sign of central sensitization after breast cancer surgery: comparison between mastectomy and lumpectomy. Pain Med; 2011;12(1):72–8.

Duarte MA, et al. Pressure pain threshold in children with recurrent abdominal pain. J Pediatr Gastroenterol Nutr.; 2000;31(3):280–5.

Cornelissen L, et al. Pain hypersensitivity in juvenile idiopathic arthritis: a quantitative sensory testing study. Pediatr Rheumatol Online J.; 2014;12:39.

Plinsinga ML, et al. Evidence of Nervous System Sensitization in Commonly Presenting and Persistent Painful Tendinopathies: A Systematic Review. J Orthop Sports Phys Ther.; 2015;45(11):864–75.

Martenson ME, et al. A possible neural basis for stress-induced hyperalgesia. Pain.; 2009;142(3):236–44.

Pedersen BK & Saltin B. Evidence for prescribing exercise as therapy in chronic disease. Scand J Med Sci Sports.; 2006;16 Suppl 1:3–63.

 

ANNELEEN

Anneleen Malfliet

Fisioterapeuta

Membro do Grupo de Pesquisa Internacional  Pain in Motion.

Realiza pesquisa para seu PhD na Vrije Universiteit Brussel, Brussels, Belgium.
Recebe investimentos do Research Foundation Flanders (FWO), Belgium.

2017 Pain in Motion

 

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